top of page

O Xeque-Mate Antecipado: Como a letargia do Iguaçu pavimenta a hegemonia de Moro no Paraná

  • Foto do escritor: René Santos Neto
    René Santos Neto
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Enquanto o governo estadual hesita na escolha do sucessor, Sergio Moro lidera as pesquisas com folga e monta uma coalizão robusta à direita, forçando peças governistas como Rafael Greca a buscarem sobrevivência em outros palanques.


A política paranaense em março de 2026 oferece uma aula prática sobre os custos da hesitação eleitoral. O governador Ratinho Junior, dono da caneta e da máquina estadual, vive uma paralisia decisória crônica quanto ao seu sucessor. Essa letargia já cobra seu preço: o esfacelamento prematuro de sua base e a consolidação de um adversário formidável. A tese central que os dados desta semana demonstram é clara: Sergio Moro não está apenas liderando pesquisas de intenção de voto nos cenários estimulados ; ele está engolindo o espólio político do atual governo antes mesmo do início oficial da campanha. Ao selar sua filiação ao PL — com as bênçãos de Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto — o ex-juiz unifica a centro-direita e a direita conservadora. Ao mesmo tempo, atrai o partido Novo e garante Deltan Dallagnol como seu candidato ao Senado, reeditando a força simbólica da Lava Jato na chapa. O PSD de Ratinho Junior, por sua vez, assiste à fuga de Rafael Greca, um de seus nomes mais competitivos, para o MDB. O cenário atual não é de uma disputa aberta, mas de uma hegemonia que se desenha pela competência de articulação de um lado e pela inércia do outro.


A leitura política ganha materialidade nos números divulgados pelo IRG Pesquisas. A fotografia revela um eleitorado que, quando estimulado, orbita gravitacionalmente em torno do recall do ex-ministro da Justiça. A pesquisa ouviu 1.000 pessoas entre os dias 13 e 18 de março , apresentando margem de erro de 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Na sondagem espontânea, a esmagadora maioria (69,8%) não sabe ou não respondeu em quem votará , enquanto 4,5% declaram voto nulo ou branco. Moro lidera timidamente com 7,4% , seguido por Ratinho Junior (inelegível para o cargo) com 6,7% e Requião Filho com 4,7%. Alexandre Curi (1,9%) , Guto Silva (1,8%) e Rafael Greca (1,7%)  figuram na margem de irrelevância neste cenário sem estímulo. Contudo, quando os nomes são apresentados, o cenário muda drasticamente. No primeiro cenário testado, Moro atinge 40,8% , contra 19,7% de Rafael Greca e 18% de Requião Filho. Em uma segunda simulação, com Guto Silva como o candidato do PSD, Moro sobe a 43,5% , Requião Filho assume a vice-liderança isolada com 19,7% , e Guto atinge modestos 14%. Já no terceiro cenário, com Alexandre Curi na disputa, Moro lidera com 42,8% , Requião Filho marca 19,1% , e Curi anota 15,2%.


A análise comparativa entre os cenários estimulados do próprio instituto fornece a chave de leitura para a resiliência de Moro. O senador oscila dentro da margem de erro — variando de 40,8% a 43,5% — independentemente de quem seja o adversário governista testado. Isso não é ruído estatístico; é evidência de um piso eleitoral cristalizado. O eleitor de Moro já tomou sua decisão e não migra nem para a moderação metropolitana de Greca, nem para as máquinas fisiológicas de Curi ou Guto. Por outro lado, fica evidente o "teto de vidro" dos ungidos diretos do Iguaçu. Guto Silva e Alexandre Curi demonstram sérias dificuldades de tração estadual, perdendo a segunda colocação para Requião Filho em seus respectivos cenários. Apenas Rafael Greca consegue superar numericamente a esquerda, empatando na margem de erro com Requião, mas mostrando maior musculatura para tentar furar o bloqueio morista.


As implicações estratégicas desse quadro são profundas. A chapa de Moro adota uma lógica de arrastão tático. A filiação ao PL, marcada para o dia 24 de março, garante estrutura robusta e alinhamento com a base bolsonarista. Ao costurar a ida de Deltan Dallagnol para a vaga ao Senado, com aval da legenda e do Novo, Moro cria um forte efeito coattail na base lavajatista. Essa engenharia política, contudo, deixou sequelas em seu próprio campo: a jornalista Cristina Graeml, antes abrigada no União Brasil de Moro com pretensões majoritárias, viu o espaço para o Senado ser fechado pela composição com Deltan e Filipe Barros (PL), sendo orientada a buscar a Câmara Federal. Contrariada, ela agora busca legendas alternativas para manter seu projeto vivo. Paralelamente, no campo governista, a debandada de Greca é sintomática. Percebendo que a espera pela bênção de Ratinho Junior era uma armadilha , o ex-prefeito selou sua ida para o MDB, em movimento agendado também para 24 de março, em Brasília. Com isso, o MDB passa a ter um pré-candidato competitivo na prateleira, forçando Ratinho a negociar em desvantagem se quiser o apoio da legenda. O Palácio Iguaçu, cujos mármores conhecem a predileção do governador por Guto Silva , aposta todas as fichas de que o poder da máquina reverterá o atual "voo de galinha" de seu candidato. É uma aposta altíssima.


Se a política é o meio, a política pública é o fim, e os dados sinalizam um potencial giro de rota no estado. O governo Ratinho foca historicamente em grandes concessões, infraestrutura e pragmatismo econômico. Moro, por sua vez, possui um histórico centrado em segurança e combate à corrupção. Entretanto, há sinais de que o ex-juiz busca blindar sua futura governabilidade e acalmar o setor produtivo. A possível acomodação de Paulo Martins (Novo) em uma secretaria estratégica de orçamento gordo — como Infraestrutura ou Cidades — em um eventual governo, sinaliza ao mercado e aos prefeitos que a máquina de obras não vai parar. Para o cidadão comum, o apetite de mudança foca na expectativa de serviços públicos eficientes e transparentes. O risco, contudo, reside na relação com a Assembleia Legislativa, historicamente dominada por deputados acostumados à negociação varejista que hoje apoiam o PSD.


Qualquer análise em março de 2026 exige cautela profilática contra futurologia. A altíssima taxa de indecisos na menção espontânea (69,8%) indica que os dados estimulados refletem, em grande parte, o viés de recall. Moro e Greca são marcas estabelecidas, enquanto Guto Silva e Alexandre Curi ainda não foram maciçamente apresentados ao grande público pela máquina estadual. Além disso, a atual janela de trocas partidárias gera factoides intensos que injetam nomes na mídia, inflando artificialmente o desempenho momentâneo. Na próxima rodada de pesquisas, o que se deve observar com escrutínio não é apenas a liderança de Moro, mas a eficácia da troca partidária de Greca — se o MDB lhe dará fôlego para ultrapassar os 20% — e o limite da inércia do PSD. O governador precisará assumir logo o ônus de bancar Guto Silva ou buscar um nome novo fora do radar. A pesquisa IRG não decreta o fim da eleição paranaense, mas emite um alerta sonoro. Sergio Moro está ditando o ritmo do jogo, atraindo aliados pesados  e obrigando seus adversários a jogar na retranca. Para o governo estadual, a esperança de que o poder da máquina resolverá tudo na undécima hora soa cada vez menos como estratégia baseada em evidências, e mais como negacionismo eleitoral.


Referências

  1. IRG Pesquisas. Pesquisa Eleitoral Governador (Paraná). Campo: 13–18/03/2026. Amostra: 1.000. Margem de erro: ±3,1 p.p., 95% IC.

  2. Blog Politicamente. Moro vai se filiar no PL e a vice será oferecida para o União/PP [Internet]. 2026 mar 18 [citado 2026 mar 19].

  3. Blog Politicamente. Batman e Robin: Moro filia dia 24 no PL e Deltan será o candidato dele ao Senado [Internet]. 2026 mar 19 [citado 2026 mar 19].

  4. Blog Politicamente. Greca acerta com o MDB e filiação será durante os 60 anos de fundação do partido [Internet]. 2026 mar 19 [citado 2026 mar 19].

 
 
 

Comentários


bottom of page