O Dilema de Ratinho Jr. – Entre a Hegemonia de Moro e a Inviabilidade de Guto Silva
- René Santos Neto
- 23 de jan.
- 5 min de leitura

A política paranaense vive, neste início de 2026, um fenômeno de dissociação cognitiva eleitoral. De um lado, o governador Ratinho Junior (PSD) ostenta uma aprovação popular que beira o consenso soviético — 85,5% dos paranaenses aprovam sua gestão. De outro, o candidato ungido pelo sistema governista para sucedê-lo, Guto Silva, amarga a irrelevância estatística, estacionado em um dígito. A nova pesquisa do instituto Paraná Pesquisas, divulgada nesta semana, não traz apenas números; traz um ultimato ao Palácio Iguaçu. A tese que os dados sustentam é cristalina: a insistência em um nome sem densidade eleitoral própria (Guto Silva) não apenas entrega o estado de bandeja para Sérgio Moro (União), possivelmente em primeiro turno, como implode a base de lançamento das pretensões presidenciais de Ratinho Junior.
Enquanto a "máquina" tenta fabricar um candidato, o eleitorado busca refúgio em marcas consolidadas. Sérgio Moro solidifica-se como o favorito absoluto, flertando com a vitória antecipada em cenários onde enfrenta o candidato oficial do governo. Paralelamente, a figura de Alvaro Dias (MDB) resurge não como um coadjuvante, mas como um player central, capaz de atrair o eleitorado moderado que rejeita o radicalismo da esquerda e a beligerância lavajatista. Para O Inquiridor, a leitura é direta: o Paraná caminha para uma eleição de recall e personalidade, onde a eficiência administrativa (tão bem avaliada) não está conseguindo, por ora, fazer a sucessão.
O que os dados mostram
A pesquisa, registrada sob o número PR-08451/2026, traz uma fotografia robusta do cenário estadual.
Amostra e Método: Foram realizadas 1.300 entrevistas presenciais entre os dias 18 e 22 de janeiro de 2026, abrangendo 54 municípios. A margem de erro é de 2,8 p.p. e o nível de confiança de 95%.
A Consolidação de Moro: O senador Sérgio Moro lidera em todos os cenários estimulados. No Cenário 1, com Guto Silva na disputa, Moro atinge 41,6% das intenções de voto.
A Inviabilidade Atual de Guto Silva: O candidato governista aparece com esquálidos 5,7% no Cenário 1, tecnicamente empatado com votos brancos e nulos.
O "Engarrafamento" pelo Segundo Lugar:
Alvaro Dias: Surge com 19,7% (Cenário 1), demonstrando força de recall.
Requião Filho (PT/PDT): Estável em 19,5%, marcando o teto histórico da esquerda no estado.
Rafael Greca: Quando testado (Cenário 3), salta para 17,5%, empatado tecnicamente com Alvaro e Requião, mostrando-se muito mais competitivo que Guto.
Alexandre Curi: No Cenário 2, atinge 10,6%, quase o dobro de Guto, mas ainda longe de ameaçar os líderes.
O Massacre no Segundo Turno: Na simulação de confronto direto (Cenário 7), Moro vence Guto Silva por acachapantes 61,5% a 20,7%.
Movimento vs. Ruído
Ao compararmos com rodadas anteriores, observamos tendências que superam o ruído estatístico:
Estabilidade de Moro: Moro oscilou de 40% (Cenário 2, Nov/25, dado inferido da estabilidade) para patamares similares agora. Sua rejeição é de 20,2%, baixa para um líder, indicando um teto ainda não atingido.
A "Não-Decolagem" de Guto: Em novembro, Guto Silva tinha patamares similares. O crescimento esperado pela exposição da máquina não ocorreu. A variação é medíocre para quem detém a chave do cofre estadual.
Curi vs. Guto: Alexandre Curi, mesmo sendo um nome de bastidor, já pontua o dobro de Guto Silva (10,6% vs 5,7%). Isso sugere que o eleitor reconhece mais autoridade política em Curi (ou simplesmente o confunde com a família tradicional) do que na aposta burocrática do governador.
Implicações Estratégicas
Para Ratinho Junior e o Planalto: O governador vive um drama shakespeariano. Para ser presidente, precisa vencer em casa. Perder o Paraná para Moro — um rival direto no campo da direita nacional — seria desastroso. Apoiar Guto Silva, com os números atuais, é caminhar para o suicídio político. A pesquisa grita que a transferência de votos não é automática. O eleitor aprova Ratinho (85%), mas não assina um cheque em branco para seu indicado.
A Disputa Interna (O "Vestibular" Governista):
Guto Silva: Os dados sugerem inviabilidade. Se não crescer dois dígitos até março, sua candidatura se torna um peso morto.
Alexandre Curi: Tem mais tração que Guto, mas ainda é insuficiente para bater Moro. Sua força está na capilaridade com prefeitos (não medida diretamente na estimulada geral), mas a pesquisa mostra que o eleitor comum ainda não comprou a ideia.
Rafael Greca: É o "elefante na sala". Com 17,5% (Cenário 3), é o único governista que começa o jogo em patamar de disputa real. Sua rejeição (12,0%) é baixa. Estrategicamente, Greca é a única barreira real contra uma vitória de Moro no primeiro turno.
O Fator Alvaro Dias: A presença de Alvaro Dias (19,7%) embaralha o jogo. Ele drena votos tanto de Moro (centro-direita) quanto de eleitores que rejeitam os extremos. Alvaro representa a "moderação experiente". Num eventual segundo turno contra Moro, ele performa melhor que qualquer governista (37,3% vs 51,0%), reduzindo a vantagem do ex-juiz. Alvaro pode ser a "bóia de salvação" para uma composição de centro que isole Requião e force Moro a negociar.
Requião Filho e a Bolha da Esquerda: Os dados confirmam o isolamento. Com 30,2% de rejeição (a maior do pleito) e estagnado na casa dos 19-20%, Requião Filho fala apenas para os convertidos. Sua dificuldade em furar a bolha ideológica em um estado conservador torna sua presença útil apenas para garantir que haverá um polo de oposição, mas inócua para a disputa de poder real no Palácio Iguaçu.
Políticas Públicas: O Risco da Descontinuidade
A pesquisa revela uma dissonância perigosa para a gestão pública. A altíssima aprovação de Ratinho Jr. (74,8% Ótima/Boa) sugere que o paranaense quer a continuidade do modelo de gestão (infraestrutura, concessões, digitalização). No entanto, ao votar massivamente em Moro, o eleitor está optando por uma ruptura de estilo. Um governo Moro teria foco total em segurança pública e combate à corrupção (pauta nacional), potencialmente drenando energia das pautas de desenvolvimento econômico e logística que marcam a era Ratinho. Para o setor produtivo e para a burocracia estatal, a troca de um "gestor" (Ratinho) por um "justiceiro" (Moro) traz incertezas sobre a manutenção de contratos e o ritmo de obras.
Riscos de Interpretação
Recall vs. Intenção: Janeiro de 2026 ainda é pré-campanha. Moro, Alvaro e Greca têm 100% de conhecimento. Guto e Curi são desconhecidos do grande público. O "viés de recall" infla os veteranos. A máquina (prefeitos e cabos eleitorais) só entra em campo pra valer durante a campanha oficial.
Sobreposição de Cenários: A pesquisa testa múltiplos cenários. A fragmentação da direita (Moro + Alvaro + Governista) favorece a ida de Requião ao segundo turno em alguns desenhos, mas a soma dos votos de centro-direita (quase 70%) indica que o Paraná continuará à direita.
O "Voto Envergonhado": A rejeição a políticos tradicionais pode estar subestimada. O voto em Moro pode ser, em parte, um voto de protesto contra o sistema político que Curi e Guto representam.
O que observar agora
Na próxima rodada, o foco não deve ser a liderança de Moro, mas a taxa de conversão de Guto Silva. Se, após a exposição massiva do verão e obras entregues, ele não chegar a 10-12%, a candidatura estará morta. Outro ponto é a movimentação de Alvaro Dias: se ele mantiver os 20%, torna-se o fiel da balança, podendo negociar o Senado (onde lidera com folga, 47,5%) em troca de apoio a Moro ou ao Governo, definindo o destino da eleição.
Conclusão
Os números da Paraná Pesquisas de janeiro lançam um alerta de "risco sistêmico" para o grupo de Ratinho Junior. A estratégia de impor um nome de confiança (Guto Silva) contra a vontade popular está falhando espetacularmente. O governador enfrenta agora uma escolha de Sofia: manter a fidelidade a Guto e arriscar perder o estado (e o sonho presidencial) para Sérgio Moro logo no primeiro turno, ou pragmatizar a disputa, apostando em Rafael Greca ou compondo com Alvaro Dias para forçar um segundo turno competitivo. Hoje, o Paraná aprova o governo, mas rejeita o candidato do governo. E em política, a gratidão do eleitor termina onde começa a urna.
Referências
Paraná Pesquisas. Pesquisa de Opinião Pública – Estado do Paraná. Campo: 18–22/01/2026; Amostra: 1.300 eleitores; Margem de erro: ±2,8 p.p. (IC=95%); Método: entrevistas pessoais presenciais. Registro TSE: PR-08451/2026.
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