Governo do Paraná: Quando a Máquina perde para o Celular
- Jorge Augusto Derviche Casagrande
- 23 de jan.
- 4 min de leitura
A política contemporânea já não se decide apenas em palanques, gabinetes refrigerados ou arranjos partidários cuidadosamente costurados, como nos "tempos de Anibal". Houve um tempo em que bastavam dinheiro, cargos e conchavos para “cooptar lideranças” ou contratar verdadeiros arrebanhadores de votos espalhados pelo estado. Dizia-se com naturalidade: “Tício nos garante 10 mil votos ali”, “Caio prometeu mais 15 mil acolá”.
A matemática era tão precisa que o diálogo com o eleitor tornava-se dispensável. Resolvia-se tudo por meio de Tício e Caio — e elegia-se o eterno Dr. Arrumadinho, que jamais pisaria na lama das ruas sem pavimentação de onde provinham seus votos.
Esse modelo ruiu. E a eleição de 2026 ao Governo do Paraná provará a tese.
As redes sociais como comunicação descentralizada via internet alteraram radicalmente essa lógica. Hoje, Tício e Caio já não conseguem intermediar o diálogo político, porque praticamente todo eleitor carrega no bolso um smartphone conectado às redes. O político não pode mais se esconder atrás de cabos eleitorais, partidos ou máquinas administrativas. Ninguém mais dá bola para as bandeiras ou papéu dos "formiguinhas". O Dr. Arrumadinho, agora, não precisa apenas de dinheiro ou de arranjos — precisa de atração e, sobretudo, de atenção.
A disputa eleitoral passa a se resolver, cada vez mais, no único ativo verdadeiramente escasso do nosso tempo: atenção. E, sob esse critério, a pré-disputa pelo Governo do Paraná revela uma assimetria que o establishment insiste em tratar como detalhe, quando na verdade é estrutural.
O Inquiridor recebeu, via fonte, a estatística de uma única postagem do senador Sérgio Moro — sobre Maduro na rede social Instagram. Nesta foi registrada, em poucos dias, 16 milhões de visualizações orgânicas, em curtíssimo espaço de tempo, com mais de um milhão de interações. Um desempenho absolutamente excepcional para um perfil com cerca de 3,9 milhões de seguidores.
Isso não é ruído. É atenção. E é o maior ativo político que uma liderança pode ter hoje.
O poder de Moro de dialogar diretamente com o eleitor é gigantesco — e isso inevitavelmente se reflete nas pesquisas. Em contraste, somados, os principais nomes da política tradicional paranaense — Rafael Greca, Alexandre Cury, Guto Silva e Requião Filho — não alcançam, juntos, meio milhão de seguidores relevantes no Instagram e no X. Trata-se de um alcance modesto, essencialmente regional, dependente de impulsionamento, mídia amiga e da velha engrenagem estatal de visibilidade.
Sérgio Moro opera em outro plano. Sua base digital soma milhões de seguidores, pulverizados geograficamente, inseridos em múltiplas bolhas informacionais e relativamente imunes à mediação local. Não se trata apenas de números: trata-se de capacidade real de agenda, influência direta e comunicação sem pedágio institucional.
A teoria da comunicação política já deu nome a esse fenômeno há tempos: desintermediação. Quando o político fala diretamente com o público, a imprensa perde o monopólio do enquadramento, blogs chapa-branca perdem relevância e o sistema político tradicional perde o controle da narrativa. Assembleias, secretarias e editoriais passam a correr atrás do debate — já não o conduzem.
O que se observa, portanto, é um estado quase explícito de desespero. Candidatos incapazes de dialogar com o eleitor correm para contratar blogs, portais e “opiniões terceirizadas”. Ainda que consigam, por meio de poder financeiro superior ou expedientes pouco transparentes, sequestrar parte da mídia tradicional, isso não os aproxima — nem de longe — da força comunicacional que Moro possui sozinho. Isso sem sequer contabilizar seus aliados.
Há um dado técnico frequentemente ignorado, talvez por ser desconfortável: o custo marginal da comunicação. Para políticos com baixo capital digital, cada narrativa exige orçamento, cargos, favores, alianças e publicidade institucional. Para quem já concentra atenção, o custo de pautar o debate tende a zero. Um post, um vídeo curto, uma frase bem colocada — e a agenda pública se desloca.
Esse fenômeno já foi amplamente demonstrado. O deputado Nikolas Ferreira, repetidas vezes, expôs e constrangeu a bilionária máquina governamental munido apenas de um celular e um perfil em rede social. Nada indica que Moro não possa revelar potencial semelhante ao longo da disputa.
Esse diferencial não é cosmético. Ele redefine a própria lógica eleitoral. Não se trata de vaidade digital, mas de velocidade de reação, capacidade de mobilização, blindagem reputacional e resiliência frente a ataques coordenados. Quem não domina a comunicação reage. Quem domina, pauta.
Há ainda um elemento simbólico que o poder institucional insiste em subestimar: redes sociais funcionam hoje como um proxy de legitimidade política. Para parcelas crescentes do eleitorado, relevância pública não é medida por tempo de mandato ou número de cargos ocupados, mas por alcance, engajamento e presença cotidiana no debate. Cargo não gera autoridade — atenção gera.
O resultado é um paradoxo incômodo para a política paranaense: lideranças com forte controle da máquina estatal, diálogo inexistente com o eleitor e presença digital frágil disputam espaço com um ator que não domina o aparelho local, mas domina o ecossistema da atenção.
E isso conduz à pergunta que ninguém no centro do poder parece disposto a enfrentar:
em uma eleição cada vez menos mediada por partidos, jornais e instituições — e cada vez mais organizada por redes, influência e comunicação direta — até que ponto estruturas tradicionais de poder conseguem competir com quem fala, todos os dias, com milhões, sem pedir licença a ninguém?
Talvez o maior erro do establishment não seja subestimar um candidato específico — mas continuar acreditando que controla um jogo cujas regras já mudaram.

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