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  • Foto do escritorRené Santos Neto

O "risorgimento" de Beto Richa

Atualizado: 17 de dez. de 2022

As eleições de 2022 no Paraná nos reservam algumas reviravoltas. Em meio ao marasmo da unção do atual governador, competindo com um octogenário e anacrônico adversário, além de uma eleição absolutamente indefinida para o Senado (em que qualquer um dos três concorrentes poderá chegar à Câmara Alta), cabe aqui colocarmos uma lupa sobre a eleição para Deputado Federal.


Apesar do ex-procurador Deltan Dallangnol se destacar como o possível mais votado desta disputa, cabe aqui destacarmos uma grande personalidade da política paranaense que se "rebaixou" para esta disputa, em um movimento estratégico que prevê novos vôos em 2024 e 2026. Trata-se do ex-governador Beto Richa.


Filho do saudoso ex-governador e ex-senador José Richa, uma das grandes lideranças das Diretas Já e da Redemocratização, Beto Richa possui o pedigree de uma casta política. Casou-se no começo da década de 1990 com Fernanda Vieira, herdeira de Avelino Vieira, unindo o poder financeiro com o poder político. Era o princípio de uma dinastia política que viria a dominar o Estado nas décadas vindouras.


Em 1992 Beto Richa se aventura na sua primeira eleição: vereador em Curitiba. A "eleição mais dífiil de todas", em suas próprias palavras. Faz mil e poucos votos, mas consolida a sua imagem no eleitorado. Após a derrota retumbante de seu pai na eleição de Governador de 1990, era o recomeço da história da família no Estado.

Em 1994 o velho Richa alia-se a Jaime Lerner, visando derrotar o inimigo comum Alvaro Dias (o mesmo que excomungou o ex-governador em sua posse em 1987). Nesse acordo, Beto Richa entra como componente da chapa de deputados estaduais do PTB, vindo a obter o seu primeiro mandato. Reelegeria-se novamente em 1998, sem fazer recordes de votação. Porém, com o sobrenome que detinha, já tinha planos para vôos mais altos.


Em 2000 dá o primeiro salto significativo em sua carreira: é alçado a vice-prefeito na chapa de Cássio Taniguchi. Em uma das eleições mais disputadas da história de Curitiba, elege-se a chapa com 26 mil votos de diferença para Ângelo Vanhoni. Uma disputa dura, que deixou profundas marcas na política paranaense. Mas que possibilitou colocar Beto Richa como o herdeiro do grupo político de Jaime Lerner.


Apesar do alto desgaste do governo Lerner, Richa é colocado pelo grupo vigente como candidato a governador em 2002. Disputando a eleição com dois pesos-pesados da política paranaense (Requião e Alvaro Dias), não faz feio. Fica em terceiro lugar na disputa, e cacifa o seu nome para disputas majoritárias futuras.


Em 2004 tem o grande salto de sua carreira: com um grupo político fechado e azeitado, monta uma grande aliança em que consegue se eleger com tranquilidade no segundo turno contra o mesmo Vanhoni que enfrentou como vice-prefeito em 2000. Ajudou o "rompimento" com Cássio Taniguchi e o encampamento da redução da tarifa de ônibus e a criação da "domingueira", que foram os grandes cabos eleitorais seus naquela disputa.


Neste momento tem início a chamada "dinastia Richa". Beto imprime o seu estilo à gestão, com ampliação de obras pela cidade (o projeto da Linha Verde tem o maior impulso na sua gestão pela Prefeitura). O perfil de "tocador de obras" é decisivo para que consiga a maior vitória em um pleito eleitoral de Curitiba, com 77% dos votos válidos, ao vencer Gleisi Hoffmann. Com uma vitória assombrosa, Beto Richa consolida-se como o grande nome ao Governo do Estado.


Em 2010 renuncia ao mandato de prefeito para tentar o governo. Não contava com a mudança de lado de Osmar Dias, que até aos 47 do segundo tempo era seu candidato a Senador. Virou seu principal adversário, porém não tão forte para impedir a eleição de Beto no primeiro turno.


Apesar da consolidação da dinastia, não ficou imune a rachaduras. Em 2012 comete o seu primeiro deslize político, ao rifar Gustavo Fruet do seu partido e entregar o ex-aliado de bandeja ao PDT. Seu vice, Luciano Ducci, não consegue ir ao segundo turno e Fruet acaba se elegendo prefeito. A relação entre os dois é tensa, e Richa é acusado de "dificultar" a gestão municipal por parte de Fruet.


Em 2014, detendo altos índices de aprovação, Richa vai à reeleição. Enfrentando a dupla Glesi-Requião (então senadores) reelege-se com tranquilidade. Alguns mais animados já colocam o nome de Richa como presidenciável em 2018.


Porém, havia uma Lava-Jato e um combate a corrupção no caminho. O seu segundo mandato é envolvido em denúncias de corrupção que começam a pipocar no final da gestão. Renuncia para dar lugar a Cida Borghetti, visando um lugar na Câmara Alta. Porém, é supreendido pelo destino e acaba sendo preso na Operação Piloto em plena campanha eleitoral. Um desastre político que o faz ficar atrás até de Zé Boni na disputa. Acabou solto da cadeia e depois inocentado das acusações, mas as marcas de 2018 permaneceram.


Após a derrota para o Senado, traumatizado pela sua prisão e de sua esposa, Richa se recolhe. Começa a refletir sobre a sua carreira. Começa, pouco a pouco, a receber visitas de prefeitos e ex-prefeitos saudosos de seu trabalho como Governador. Começa, devagarinho, a "pegar gosto" de novo pela coisa. Fernanda Richa, traumatizada ainda pelos acontecimentos, desaconselha o marido a seguir de novo pela seara política. Mas o pedigree e o destino falam mais alto.


Richa se articula novamente para voltar à pista. Escolhe, humildemente, ir para a Câmara Baixa. Recomeçar, amassar barro. Visita as pequenas cidades do Estado. Fecha dobradinhas com antigos companheiros. Quieto, sem fazer barulho. Sabe que Ratinho será ungido governador em 2022. Mas 2024 e 2026 são histórias a serem escritas.


Pesquisas internas dão a Richa uma posição tranquila entre os 5 mais votados do Estado. Não supreeenderia se fosse o mais votado. Em 2024 articula, em silêncio, a candidatura da esposa para a prefeitura de Curitiba. Sabe que um ciclo político está se fechando. E tem as ferramentas para protagonizar um novo ciclo. E 2026 é logo ali. Se tiver uma votação consagradora agora, aliada a uma atuação próxima aos prefeitos na Câmara Federal, não é improvável um retorno ao Palácio Iguaçu.


Isso é política!



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1 comentário


Jot Der
Jot Der
05 de out. de 2022

Passadas as eleições e abertas as urnas descobriu-se que o "risorgimento" do Beto não foi nada do que se esperava, a quantidade de votos que recebeu foi medíocre, muito abaixo das expectativas, uma vitória com gosto de derrota. Só vai ocupar uma cadeira na Câmara, talvez temporariamente, pela cassação da candidatura de Joselito Canto. Verdade, "isto é política".

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