A Queda da Bastilha Jurídica: A Rejeição de Messias e a Inflexão do Poder em Brasília
- René Santos Neto
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No dia 14 de julho de 1789, a fortaleza da Bastilha, em Paris, não era apenas uma prisão medieval que abrigava minguados sete prisioneiros; era o símbolo máximo do absolutismo monárquico e da autoridade inquestionável de Luís XVI. Sua queda não foi apenas um evento militar de baixa escala, mas um "efeito eletrizante" que sinalizou ao mundo que a balança do poder havia inclinado definitivamente em favor da vontade popular e de seus representantes. Guardadas as devidas proporções temporais e geográficas, a noite de 29 de abril de 2026 em Brasília pode vir a ser lembrada como a "Queda da Bastilha" do atual arranjo político-judiciário brasileiro. A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado Federal, por 42 votos contra 34, transcende a figura do advogado-geral da União. Trata-se da primeira reprovação de um indicado à Suprema Corte desde 1894, quando Floriano Peixoto viu seus nomes barrados pelo então jovem Senado republicano. O que assistimos não foi apenas um "não" a um nome, mas uma inflexão de poder onde o Legislativo, após anos de subjugação ou autocontenção, decidiu retomar para si a chave da fortaleza institucional e ditar os novos rumos da República.
A crise de legitimidade que precedeu a queda da Bastilha na França foi alimentada por um sistema desigual de taxação e por protocolos arcaicos que impediam a ação do Terceiro Estado. No Brasil contemporâneo, a atmosfera de insurreição institucional foi gestada por um longo processo de desgaste da cúpula do Judiciário e pelo fortalecimento de uma oposição que já não aceita as indicações presidenciais como atos meramente protocolares. A Bastilha representava o arbítrio e a opressão do Antigo Regime; para a maioria dos senadores que votaram contra Messias, sua indicação representava a perpetuação de um modelo de Judiciário ativista e alinhado ideologicamente ao Executivo. O placar de 42 a 34 não foi apenas uma derrota numérica para o Presidente Lula; foi a demonstração de que o Senado, liderado por figuras como Davi Alcolumbre, assumiu o papel de "Assembleia Nacional" insurgente, exigindo que as escolhas de Estado sejam negociadas e não impostas. Alcolumbre, que anteriormente ocupava uma posição de neutralidade estratégica, agiu como o motor desta "revolução", sinalizando que o governo perdeu o controle sobre o "bairro Santo Antônio" do poder brasiliense.
O simbolismo da rejeição de Messias ganha contornos ainda mais dramáticos quando correlacionamos a queda da fortaleza francesa com o avanço do chamado "PL da Dosimetria" (Projeto de Lei 2162/2023). Se a queda da Bastilha foi o estopim para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a derrota de Messias é o preâmbulo para uma revisão profunda do ordenamento penal brasileiro. O Congresso Nacional, aproveitando o vácuo de autoridade deixado pelo governo, prepara-se para derrubar o veto presidencial ao projeto que altera drasticamente o cálculo de penas e a progressão de regime. O PL da Dosimetria é a resposta legislativa ao que o Parlamento classifica como "penas excessivas" aplicadas pelo STF. O projeto prevê a mudança do concurso material para o concurso formal em crimes cometidos em conjunto, o que significa que apenas a pena mais grave seria aplicada, com um acréscimo percentual, em vez da soma aritmética das condenações. Para os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, essa mudança técnica representa uma redução drástica no tempo de cárcere, reduzindo o tempo de progressão para o regime semiaberto de 25% para apenas um sexto da pena cumprida.
A inflexão de poder é nítida: o Legislativo está ocupando o território que antes era de domínio exclusivo da interpretação judicial. O PL da Dosimetria, assim como as reformas revolucionárias francesas, possui um alcance que transborda a questão política imediata. Levantamentos técnicos indicam que a nova lei afetará crimes graves como homicídio qualificado, latrocínio e tráfico de drogas, onde o tempo mínimo de cumprimento de pena para réus primários cairia de 70% para 40%. Até mesmo o feminicídio teria seu percentual reduzido de 75% para 55%. Esta "revisão penal" é a prova cabal de que o Congresso já não teme a retaliação do Judiciário e está disposto a reescrever o pacto social do país através da lei seca. A rejeição de Messias foi o ato de bravura política necessário para que essa agenda ganhasse tração irreversível. O Senado não apenas derrubou um indicado; ele derrubou a tese de que a Suprema Corte é o único poder capaz de dar a última palavra sobre a liberdade e o crime no Brasil.
O futuro imediato desta "Bastilha brasiliense" reserva batalhas de alta voltagem constitucional. Se o veto ao PL da Dosimetria for derrubado nesta quinta-feira (30), o texto seguirá para promulgação imediata, entrando em vigor na data de sua publicação. O STF, por sua vez, poderá reagir suspendendo a vigência da lei através de Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), sob o argumento de violação do princípio da proporcionalidade. Contudo, a força política emanada do plenário do Senado sugere que o Supremo enfrentará uma resistência inédita. A derrota histórica de Jorge Messias — um nome que contava com o apoio de ministros influentes como Gilmar Mendes e Cristiano Zanin — mostra que até mesmo a articulação da Corte falhou diante da "intoxicação com liberdade e entusiasmo" do Parlamento. O placar apertado na CCJ e a subsequente degola no plenário confirmam que o antigo regime de coordenação política entre o Planalto e o Judiciário ruiu.
Ao final desta jornada, o que resta é a imagem de um governo que, a cinco meses das eleições, perdeu a governabilidade no Senado e vê sua base aliada ser desmantelada por lideranças que agora olham para o horizonte presidencial de 2026. Jorge Messias, que tentou cortejar a direita reforçando sua fé cristã e defendendo a autocontenção do Judiciário, não foi aceito como o "servo de Deus" que traria a pacificação. Ele foi visto, no fim das contas, como o representante de uma fortaleza que precisava ser tomada para que o equilíbrio de poderes fosse restaurado. A Queda da Bastilha não trouxe a paz imediata para a França, mas mudou o curso da história humana. A rejeição de Messias e a iminente aprovação do PL da Dosimetria podem não pacificar o Brasil, mas marcam o momento em que o Congresso Nacional decidiu deixar de ser um coadjuvante na interpretação do Direito para tornar-se o protagonista da nova ordem institucional brasileira. A Bastilha caiu e, com ela, o mito de que o poder em Brasília é uma via de mão única.
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